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Pernambuco, 15 de junho de 2026

Agronegócios

Entenda por que o Super El Niño 2026 preocupa cientistas e o que muda para o Nordeste

Massa de água com temperatura até 7°C acima do normal avança pelo Pacífico e deve atingir a América do Sul em junho; Nordeste está mais preparado que em 2012, mas ausência de plano permanente preocupa especialistas

Postado em 09/06/2026 06:49

Reprodução


Uma massa de água com temperatura até sete graus centígrados acima do normal avança pelo Oceano Pacífico em direção à costa da América do Sul e deve atingir o continente a partir de junho de 2026. O fenômeno El Niño — que historicamente provoca secas severas no Nordeste brasileiro, reduz a produção agrícola e pressiona o abastecimento de água — preocupa institutos climáticos do mundo todo. Mas, desta vez, há uma diferença: a região está mais preparada do que estava em 2012, quando começou a seca mais longa das últimas décadas. Mesmo assim, especialistas alertam: sem um plano de gestão permanente, o improviso pode custar caro.

O aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico, na costa do Peru e do Equador, é o gatilho clássico do El Niño. Quando a temperatura sobe apenas um grau centígrado, já são registradas secas que se estendem do Equador, passam pela América Central e atingem o oeste americano. O que os institutos de monitoramento climático observam agora é uma anomalia de até sete graus, deslocando-se a profundidades entre 50 e 200 metros. As projeções apontam para temperaturas oceânicas até dois graus acima da média quando o fenômeno atingir a costa sul-americana — dados que colocaram o mundo em alerta, ainda que boa parte dos renomados institutos reconheça não ter ainda dados suficientes para confirmar o chamado Super El Niño amplamente anunciado pela mídia.

Para o Semiárido nordestino, o impacto não é direto como nas costas do Pacífico. O clima da região depende mais do Atlântico e do deslocamento de massas de ar vindas do Norte da África do que do Pacífico propriamente dito. O risco mais concreto no curto prazo são as microsecas — os antigos veranicos —, períodos de estiagem dentro do próprio ciclo chuvoso que comprometem a produção. Se o fenômeno se estender até o fim do ano, os efeitos sobre a agricultura podem ser mais graves. Mas isso, segundo os especialistas, ainda é incerto.

O que não é incerto é a memória recente. Entre 2012 e 2018, o Nordeste atravessou sete anos consecutivos com precipitações abaixo da média — uma seca de proporções que o professor Geraldo Eugênio, da UFRPE, compara às pragas bíblicas do Êxodo. “Não há ano em que parte da região não sinta a falta de chuvas no segundo semestre”, alerta o especialista, que destaca a importância de guardar forragem para ao menos dois anos — prática defendida também pelo empresário Stênio Galvão, da Leite Bom, em entrevista recente ao programa Decisão, da CBN Recife.

O cenário, porém, é diferente do de uma década atrás. Investimentos em eletrificação rural iniciados em Pernambuco no governo Miguel Arraes, os programas sociais de combate à fome, a expansão da internet, a transposição do Rio São Francisco e a democratização do ensino médio e superior transformaram a resiliência da região. Nas torneiras urbanas, o abastecimento está em situação muito mais confortável. O campo, especialmente as comunidades rurais mais isoladas, ainda é o elo mais frágil.

O nó que persiste, no entanto, é estrutural. Enquanto o Brasil não tiver um instituto ou agência com mandato específico para gerir as secas no Semiárido — localizado na própria região onde o fenômeno é mais frequente —, o país continuará repetindo o mesmo ciclo: a seca chega, formam-se comitês de emergência, dezenas de ministérios e secretarias estaduais trabalham sem coordenação, prefeituras pressionam por regimes de exceção e o dinheiro público é gasto em valores muito superiores ao necessário, com resultados pífios. A boa governança exige planejamento permanente, não gestão de crise.

Extraído da coluna Agronegócios do  Prof. Geraldo Eugênio, professor titular da UFRPE-UAST